VEM quente que eu estou fervendo

31/07/2009

O novo sistema desenvolvido pelo Grande Recife Consórcio de Transporte, que possibilita os estudantes da região metropolitana do Recife realizarem a compra de créditos para carregar o Vale Eletrônico Metropolitano (VEM) em casas lotéricas, parece não ajudar muito.

Chega o final de mês e o início do próximo e aquela velha história se repete: o posto de carregamento do VEM, na Praça Maciel Pinheiro, 342, Boa Vista, área central do Recife, fica lotado e os estudantes se aglomeram dentro da pequena sala, ficando desesperados para sair logo daquele “inferno”.

Realizar a recarga do “bendito” VEM. Esse é o objetivo de todos. No cubículo desse posto, apesar da humilhação sofrida pelos pais e estudantes, há uma interação de pessoas anônimas de todos os gêneros, escolaridades, classes, espécies, tamanhos, cores e formas.

Um a trás do outro e o balé de passos arrastados por sandálias, sapatos, tênis e feições realizam uma coreografia nunca imaginada por Débora Colker. Na fila, os rostos desconhecidos se encontram e deixam de ser nunca vistos quando há o “olhos nos olhos”. Para uns esse instante, de vai e volta na fila, é uma maneira de paquerar. Para outros, não há tempo de pensar, pois o calor da fornalha aquece as ideias e o corpo também.

Ir e vir é o que garante a constituição brasileira, seja a pé ou em qualquer transporte. Mas, se você for estudante no Recife e quiser se locomover de ônibus vai ter que enfrentar o mar de gente entupida na fornalha do posto de recarga do VEM.

Então, “VEM quente que eu estou fervendo”.

Texto e foto: Rogério Balbino

Posto de recarga do VEM é o verdadeiro pesadelo para pais e estudantes

Posto de recarga do VEM é o verdadeiro pesadelo para pais e estudantes

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Neolítico

22/07/2009

Você é um sistema político
que auto se governa,
desde os tempos da caverna
mergulha no pacífico.

Se um sujeito é singular
a concordância do fato
já foi particular,
agora só resta o descaso
da figura popular.

Texto: Rogério Balbino


Transporte coletivo

17/07/2009

Eu espero.
Lá vem ele cheio ou lotado,
na hora ou atrasado
e faço sinal com a mão.

Subo às vezes no empurrão.
A fila na catraca de reflexos,
olhos dormindo,
palavras caindo.

Texto: Rogério Balbino
Foto: legalzinho.files.wordpress.com/2007/04/onibus.jpg

Foto: legalzinho.files.wordpress.com/2007/04/onibus.jpg

Bilhete de viagem

14/07/2009

Tardes de amor,
corpos com calor:
a vida é passageira
sentada na cadeira.

Momento que se faz
o beijo tão voraz:
a vida é passageira
descendo a ladeira.

O jeito sensual
é um gosto genial:
a vida é passageira
água na fogueira.

Todos querem amar,
mas ninguém consegue explicar:
que a vida é passageira
de qualquer maneira.

Texto: Rogério Balbino
Foto: grupo8ano.files.wordpress.com/2009/10/sentido…

o-sentido-da-vida


Grite sem falar

13/07/2009

Você só pode chegar
em algum lugar
se o destino estiver
sorrindo à toa
da brincadeira boa,
haja o que houver.

O tempo voa
na cara sem coroa,
corra sem andar;
se a vida não couber
no ventre da mulher,
grite sem falar.

Texto: Rogério Balbino
Ilustração: pensarseixal.files.wordpress.com/…/o-grito.jpg

edvard-munch-o-grito


(in)digestão

10/07/2009

sonho

Eu acho que vou pegar um sonho desses
que você saboreia e mata fome da alma.

-Tem que pagar primeiro é?
Eu só queria um bem simples,
com recheio de lembranças doces.

Texto: Rogério Balbino
Foto: temgente.files.wordpress.com/2009/04/sonho.jpg


Filme mostra viagem no tempo

09/07/2009
La Jetée: vangarda audiovisual

La Jetée: vangarda audiovisual

Após 29 minutos de filme, as luzes se acendem e os estudantes da sala 106, do curso de jornalismo, se olham com uma cara de não entender coisa alguma. Uns riem, outros resmungam. Mas, o fato é que La Jetée, de Cris Marker, lançado em 1962, é um curta-metragem experimental muito a frente da época em que foi apresentado ao público.

Marker utiliza na sua linguagem cinematográfica uma narrativa com um sequenciamento de fotografias estáticas em preto e branco. As imagens têm bom enquadramento visual. Já a trilha sonora é envolvente, hipnotizante e traduz a “movimentação” das fotos. A produção de filmes antes de La Jetée era realizada pela ilusão dos movimentos conferida pelos 24 quadros projetos por segundo. O diretor vai de encontro a esse modelo e cria sua obra com uma linguagem própria que mistura documentário, ficção, imagem, escrita, memória e invenção.

O filme tem um estrutura básica de documentário, com um narrador em off, exibe uma Paris pós Terceira Guerra Mundial, cuja superfície recebe radioatividade tornando-a inabitável. Essas imagens de destruição nuclear são bem produzidas. Com a radioatividade tomando conta do ambiente, os seres humanos foram banidos a viver no subsolo e buscam novas formas de sobrevivência. A partir disso, alguns cientistas desenvolvem uma técnica capaz de enviar pessoas através do tempo. Após muitos testes e experiências frustradas, os inventores decidem recrutar pessoas, com imagens mentais muitos fortes, com objetivo de reestabelecer o passado em suas memórias.

O protagonista do filme tem a infância marcada. Quando criança, ele viu o rosto de uma mulher, no aeroporto de Orly, ao presenciar um assassinato. Essa lembrança persegue e perturba o personagem principal durante a sua existência. Ele viaja no tempo para buscar respostas científicas e o sentido dessa imagem em sua vida. Nessas viagens ao passado, protagonista encontra a mulher,  numa mistura de sonho e realidade e se apaixona por ela. Depois, ele segue para o futuro com a missão de descobrir uma fonte de energia capaz de salvar a humanidade. O filme mostra o presente, o passado e o futuro em um anacronismo que permite a sua reconstrução através da memória.

Um estudante, da sala 106, ficou imóvel sentado na cadeira após o término de La Jetée. Parecia que ele estava viajando no tempo. Será que ele pensava no futuro, passado ou presente?

Texto: Rogério Balbino
Foto: cinefrikiterror.files.wordpress.com/2010/01/l…